24.1.05
Elektra é legal. Não empolga como outros filmes baseados em HQ.Até porque o diretor quis que o filme não se parecesse com filme de HQ. Mas aí é que está o mérito, ele pegou uma história de quadrinhos e transformou em filme de gente grande. A fotografia é mto boa, a atuação, a narrativa e o uso intenso de close só mostram que o filme é mesmo adulto. A história só peca mesmo em empolgação, ficou difícil se emocionar com a personagem mas deu uma vontade de comprar os quadrinhos.
20.1.05
18.1.05
Demorou, mas enfim mais um texto.
A Menina do tracinho
O acento que ela mais gostava era !. Gostava tanto que só usava ele. A mãe que sabe: quando era pequena a menina fazia cara de brava, cerrava os dentes e !!!, não queria comer salada no almoço. Chegava a ser engraçado quando lhe perguntavam coisas banais, pois todos já sabiam o que iriam escutar. Era sempre sim!, não!, mais ou menos!. Até o mais ou menos. O maior dos meios-termos vinha com imponência.
E assim ela cresceu, remedando para lá e para cá, acompanhando tudo que dizia, os três tracinhos-pontos. Não queria mesmo saber de outra coisa. !, . , ? , escolhe um: !!!. O gosto era quase um amor. Perguntava afirmando, afirmava afirmando mais ainda e para botar um ponto no final o tracinho sempre vinha por cima.
Na escola a professora já não mais chamava-a pelo nome, apenas levantava a cabeça e olhava, assim como quem dá presença com a ausência da palavra. Não adiantava muita coisa, a menina logo lhe disparava um !. Quem mandou não pronunciar seu nome? Quem mais se irritava era a professora de português. Falava assim: mas minha filha, tentando pela doçura o convencimento, e se você misturar com outras coisas? Pode ser !? ou ?!? ou então !… ou !,. Não adiantava muito, nem as combinações esdrúxulas que inventara na hora mudaram a menina. A essa altura vocês já imaginam o que a professora teve como resposta. Pior foi ver a professora usar uma de suas próprias sugestões como desculpa para a diretora: ?!?. Numa cara assim de quem não sabe que sinal usar para explicar o fracasso educacional.
No recreio quem se divertia eram os meninos. Pura levadice, zombar da condição da coleguinha. Se escondiam atrás das árvores, ficavam a espiar, como se de tocaias estivessem, e ao ouvirem os passos dela, tacavam-lhe pontos aos bocados. Só para verem-na instantâneamente disparar tracinhos para todos os lados. E se riam e se rolavam. Numa malvadeza que deixa saudades.
Mas os tempos das brincadeiras nunca são para sempre. Um dia ficou assustada quando cruzou a árvore e um menino apareceu. Mas estranhamente não lhe tacou um pontinho. Ficou parado, como quem tenta pela primeira vez fazer uma pergunta, mas não fez. Você não vai me tacar um pontinho? perguntou ela, meio sem jeito. Ele balançou a cabeça, meio que dizendo “não, senhora”. Mesmo que ela não fosse uma senhora. E ela sem entender nada, não teve coragem de disparar um tracinho-ponto sequer. Esperou dois minutos. Dois minutos é muito tempo para se esperar por uma pergunta, mas ela não sabia mesmo o que fazer, então esperou.
Ele ainda continuava trêmulo em sua frente, a boca tremendo igual onda quando pedra cai no lago. Ela logo se impacientou, aquela espera enorme tinha deixado-a com muita fome. Jogou dois tracinhos-pontos, como força de hábito e foi-se embora.
Foi quando ele resolveu atacar a pedrinha. E acertou em cheio os tracinhos. Não em cheio porque poderia ter quebrado, o golpe foi tão leve que só entortou os tracinhos. Cada um ficou com uma pequena curva bem no meio do traço. O engraçado é que cada um ficou com uma curva para um lado, como se teimassem com a física e formassem um coração. É, um coração de interrogação.
A menina ficou tão surpresa que !!!. E correu em disparada para casa. Corria de fome e não exatamente de felicidade. Mas era a primeira vez que seus tracinhos tinham mudado e ela tinha gostado. Alguém gostava dela. E ao correr soltava tracinhos pontos. O menino achou que era de felicidade. O estômago achou que era para anunciar a fome. Mas na verdade nem ela sabia ao certo porque soltava aquilo.
No outro dia, ele ficou a esperá-la no portão. É assim que os namorados fazem, não é? Mas a menina distraída, como sempre estava naquela hora, desapercebeu-se do menino no portão. Talvez estivesse tão feliz por se lembrar do lanche de ontem e por ter adorado seu novo pontinho traço que nem viu o responsável por aquilo tudo lhe esperando. Responsável só pelo pontinho traço porque lanche tão gostoso só a mãe dela conseguia fazer.
Na aula ele ainda tentou chamar sua atenção. Mas ela, menina estudiosa, disparava tracinhos-pontos para professora que nunca chamava seu nome na chamada e para os alunos que perturbavam a aula. Sim, eram muitos tracinhos pontos voando pela sala. Ficava quase impossível ouvir o que ele dizia.
Mas no bolsinho do vestido ela guardara o mais especial dos tracinhos pontos: aquele que tinha sido delicadamente atingido pela pedrinha.
No recreio foi atrás do menino, não sabia ainda muito bem pra quê, mas foi. E rodou atrás do pátio inteiro, foi no campinho, na lanchonete, olhou atrás das árvores mas nada de achar o menininho. Até que o viu no parquinho construindo castelos, com uma outra menina. Pareciam felizes. E mesmo sem vê-la foi como se tivesse jogado uma pedrinha e acertado no tracinho ponto especial que ela guardava no bolsinho do vestido.
De repente, escorrendo feito água por um furinho do bolsinho, sairam três pontinhos. Assim sem nenhum traço em cima. Ficou um pouco triste e decidiu pedir para mamãe nunca mais deixar seus vestidinhos furarem. Era assim que os amores acabavam. E nunca mais tacou um tracinho ponto.
A Menina do tracinho
O acento que ela mais gostava era !. Gostava tanto que só usava ele. A mãe que sabe: quando era pequena a menina fazia cara de brava, cerrava os dentes e !!!, não queria comer salada no almoço. Chegava a ser engraçado quando lhe perguntavam coisas banais, pois todos já sabiam o que iriam escutar. Era sempre sim!, não!, mais ou menos!. Até o mais ou menos. O maior dos meios-termos vinha com imponência.
E assim ela cresceu, remedando para lá e para cá, acompanhando tudo que dizia, os três tracinhos-pontos. Não queria mesmo saber de outra coisa. !, . , ? , escolhe um: !!!. O gosto era quase um amor. Perguntava afirmando, afirmava afirmando mais ainda e para botar um ponto no final o tracinho sempre vinha por cima.
Na escola a professora já não mais chamava-a pelo nome, apenas levantava a cabeça e olhava, assim como quem dá presença com a ausência da palavra. Não adiantava muita coisa, a menina logo lhe disparava um !. Quem mandou não pronunciar seu nome? Quem mais se irritava era a professora de português. Falava assim: mas minha filha, tentando pela doçura o convencimento, e se você misturar com outras coisas? Pode ser !? ou ?!? ou então !… ou !,. Não adiantava muito, nem as combinações esdrúxulas que inventara na hora mudaram a menina. A essa altura vocês já imaginam o que a professora teve como resposta. Pior foi ver a professora usar uma de suas próprias sugestões como desculpa para a diretora: ?!?. Numa cara assim de quem não sabe que sinal usar para explicar o fracasso educacional.
No recreio quem se divertia eram os meninos. Pura levadice, zombar da condição da coleguinha. Se escondiam atrás das árvores, ficavam a espiar, como se de tocaias estivessem, e ao ouvirem os passos dela, tacavam-lhe pontos aos bocados. Só para verem-na instantâneamente disparar tracinhos para todos os lados. E se riam e se rolavam. Numa malvadeza que deixa saudades.
Mas os tempos das brincadeiras nunca são para sempre. Um dia ficou assustada quando cruzou a árvore e um menino apareceu. Mas estranhamente não lhe tacou um pontinho. Ficou parado, como quem tenta pela primeira vez fazer uma pergunta, mas não fez. Você não vai me tacar um pontinho? perguntou ela, meio sem jeito. Ele balançou a cabeça, meio que dizendo “não, senhora”. Mesmo que ela não fosse uma senhora. E ela sem entender nada, não teve coragem de disparar um tracinho-ponto sequer. Esperou dois minutos. Dois minutos é muito tempo para se esperar por uma pergunta, mas ela não sabia mesmo o que fazer, então esperou.
Ele ainda continuava trêmulo em sua frente, a boca tremendo igual onda quando pedra cai no lago. Ela logo se impacientou, aquela espera enorme tinha deixado-a com muita fome. Jogou dois tracinhos-pontos, como força de hábito e foi-se embora.
Foi quando ele resolveu atacar a pedrinha. E acertou em cheio os tracinhos. Não em cheio porque poderia ter quebrado, o golpe foi tão leve que só entortou os tracinhos. Cada um ficou com uma pequena curva bem no meio do traço. O engraçado é que cada um ficou com uma curva para um lado, como se teimassem com a física e formassem um coração. É, um coração de interrogação.
A menina ficou tão surpresa que !!!. E correu em disparada para casa. Corria de fome e não exatamente de felicidade. Mas era a primeira vez que seus tracinhos tinham mudado e ela tinha gostado. Alguém gostava dela. E ao correr soltava tracinhos pontos. O menino achou que era de felicidade. O estômago achou que era para anunciar a fome. Mas na verdade nem ela sabia ao certo porque soltava aquilo.
No outro dia, ele ficou a esperá-la no portão. É assim que os namorados fazem, não é? Mas a menina distraída, como sempre estava naquela hora, desapercebeu-se do menino no portão. Talvez estivesse tão feliz por se lembrar do lanche de ontem e por ter adorado seu novo pontinho traço que nem viu o responsável por aquilo tudo lhe esperando. Responsável só pelo pontinho traço porque lanche tão gostoso só a mãe dela conseguia fazer.
Na aula ele ainda tentou chamar sua atenção. Mas ela, menina estudiosa, disparava tracinhos-pontos para professora que nunca chamava seu nome na chamada e para os alunos que perturbavam a aula. Sim, eram muitos tracinhos pontos voando pela sala. Ficava quase impossível ouvir o que ele dizia.
Mas no bolsinho do vestido ela guardara o mais especial dos tracinhos pontos: aquele que tinha sido delicadamente atingido pela pedrinha.
No recreio foi atrás do menino, não sabia ainda muito bem pra quê, mas foi. E rodou atrás do pátio inteiro, foi no campinho, na lanchonete, olhou atrás das árvores mas nada de achar o menininho. Até que o viu no parquinho construindo castelos, com uma outra menina. Pareciam felizes. E mesmo sem vê-la foi como se tivesse jogado uma pedrinha e acertado no tracinho ponto especial que ela guardava no bolsinho do vestido.
De repente, escorrendo feito água por um furinho do bolsinho, sairam três pontinhos. Assim sem nenhum traço em cima. Ficou um pouco triste e decidiu pedir para mamãe nunca mais deixar seus vestidinhos furarem. Era assim que os amores acabavam. E nunca mais tacou um tracinho ponto.
4.1.05
29.12.04
27.12.04
O Bernbach devia ter dirigido Cinema Paradiso. O filme é história pura, não tem efeito especial, não tem truque de edição, não tem nada inovador na montagem, na fotografia, na direção que faça a história ser contada de um jeito mais interessante. Isso pq a idéia já basta por si só. Parece aqueles raffs toscos maravilhosos pra volkswagen.
21.12.04
É, eu fui ver os incríveis. É bom. Porque mostra o lugar comum. É uma tendência meio velha já. O shrek já tinha zuado com os contos de fada e mostrado algo que nos é mais comum do que uma realidade idealizada e perfeita. E isso já tinha aparecido em outras áreas, na filosofia, no desenho, nas artes, na psicologia... Tá todo mundo parando de imaginar o principe perfeito e olhando pro umbigo cabeludo. Pensei em duas coisas:como eles fazem pro lugar comum ser tão mais legal que o incrível? Será que as mulheres que assistirem os incríveis vão ficar menos paranóicas? :-)
30.11.04
24.11.04
A dança dos guarda-chuvas
Um dia desses me deparei com um anúncio homenageando São Paulo. Vários guarda-chuvas vistos de cima formavam uma famosa garrafa de vodka. Imediatamente me lembrei dos dias chuvosos de verão e de como as pessoas não sabem andar com guarda-chuva. Literalmente, viram açúcar quando chove. Por que elas não conseguem desviar um pouquinho o guarda-chuva para não atingir a pessoa que vem na direção contrária? O que umas gotinhas a mais podem prejudicar a roupa? Afinal, ela foi feita para molhar, óbvio que só na máquina, mas algumas gotas não são motivo para se entrar em pânico.
Fiquei pensando em como é temporal em Paris. Será que as pessoas desviam ou não o guarda-chuva? Eu me molho um pouco para a madame passar, não tem problema. Mas e se for madame com madame? Provavelmente impera a arrogância francesa. Porque essa fama tem que vir de algum lugar.
Já na Inglaterra é o cavalheirismo que emperra tudo. Porque é um querendo que o outro passe primeiro. E como o que aceita primeiro parece ser menos cavalheiro que o outro, ninguém anda. Se bem que com o céu cinza quase o ano todo, eles devem esquecer um pouco disso de vez em quando. Deve ser por isso que nem todo mundo lá é sir.
Infelizmente eu não moro no velho continente. O que também não me livraria de me machucarem com o guarda-chuva. Talvez a Constanza Pascolato devesse escrever um capítulo sobre guarda-chuvas no seu próximo livro. Ótima solução. Enquanto isso não acontece, o jeito é rezar para não encontrar nenhum guarda-chuva vindo em sua direção. Ou para que São Pedro colabore.
Um dia desses me deparei com um anúncio homenageando São Paulo. Vários guarda-chuvas vistos de cima formavam uma famosa garrafa de vodka. Imediatamente me lembrei dos dias chuvosos de verão e de como as pessoas não sabem andar com guarda-chuva. Literalmente, viram açúcar quando chove. Por que elas não conseguem desviar um pouquinho o guarda-chuva para não atingir a pessoa que vem na direção contrária? O que umas gotinhas a mais podem prejudicar a roupa? Afinal, ela foi feita para molhar, óbvio que só na máquina, mas algumas gotas não são motivo para se entrar em pânico.
Fiquei pensando em como é temporal em Paris. Será que as pessoas desviam ou não o guarda-chuva? Eu me molho um pouco para a madame passar, não tem problema. Mas e se for madame com madame? Provavelmente impera a arrogância francesa. Porque essa fama tem que vir de algum lugar.
Já na Inglaterra é o cavalheirismo que emperra tudo. Porque é um querendo que o outro passe primeiro. E como o que aceita primeiro parece ser menos cavalheiro que o outro, ninguém anda. Se bem que com o céu cinza quase o ano todo, eles devem esquecer um pouco disso de vez em quando. Deve ser por isso que nem todo mundo lá é sir.
Infelizmente eu não moro no velho continente. O que também não me livraria de me machucarem com o guarda-chuva. Talvez a Constanza Pascolato devesse escrever um capítulo sobre guarda-chuvas no seu próximo livro. Ótima solução. Enquanto isso não acontece, o jeito é rezar para não encontrar nenhum guarda-chuva vindo em sua direção. Ou para que São Pedro colabore.
16.11.04
Cheguei a conclusão que documentários são reportagens investigativas...Se não fosse a trilha legal, as entrevistas longas e a geração de caracteres bacaninha podiam passar no Jornal nacional.
E é o estilo cinematográfico menos tido como arte no Brasil. Eu acho o contrário. Eles são quase reportagens mas não são. É como olhar o abismo bem de pertinho.
Para ver:
Motoboys- Vida Louca
Balseros
E é o estilo cinematográfico menos tido como arte no Brasil. Eu acho o contrário. Eles são quase reportagens mas não são. É como olhar o abismo bem de pertinho.
Para ver:
Motoboys- Vida Louca
Balseros
9.11.04
8.11.04
Brilho eterno de uma mente sem lembranças é bom. Mas nada de excepcional. A idéia de fazer filmes sobre memórias é interessante, mas já tem um monte no mercado, até eu fiz o meu. A atuação é boa, a Kate detonou. Mas duas coisas de destaque são:
1) o diálogo da cena do metrô, logo no começo, quando os personagens principais se conhecem. Sensacional. Queria ter escrito aquilo, mto bom.
2) o uso do foco. Mó quesito técnico,mas fundamental...mto interessante o jeito que ele usa o foco para contar a história. Inclui-se também o uso das lentes,claro.
1) o diálogo da cena do metrô, logo no começo, quando os personagens principais se conhecem. Sensacional. Queria ter escrito aquilo, mto bom.
2) o uso do foco. Mó quesito técnico,mas fundamental...mto interessante o jeito que ele usa o foco para contar a história. Inclui-se também o uso das lentes,claro.
3.11.04
27.10.04
25.10.04
LUCIDEZ
A tarde iluminava bem a varanda, o sol do campo não encontrava obstáculos para varrer o verde e brilhar a madeira. Só aquele senhor sentado a olhar as flores. Um olhar triste, meio abatido se juntava com as rugas que ganhara durante a vida.
Uma margarida soltou uma pétala. Hesitou, quis se levantar, a coluna doía, juntou forças e saiu da cadeira. O vento forte balançava seu cabelo. Pegou a pétala. Lembrou dela. Três décadas.
A textura da pétala lembrava sua face jovem. Delicada. Parou uns instantes. Fechou os olhos. O que será que ela pensava dele? Havia cometido tantos erros nesses trinta anos. Faltou com carinho. Vamos amanhã? Quem sabe amanhã? Trabalhou demais.
Não, agora não, não vou pensar nisso agora. Que importância? Um dia saí mais cedo. Tudo que pensar não vai me tirar essa sensação. Foi uma constante? E os três filhos? Ela sempre os quis.
Abriu os olhos. Não conseguia medir as coisas. As lembranças nunca foram parcas. Levantou-se. Voltou novamente a sentar na cadeira de balanço. O sorriso era uma coisa que não lhe vinha à face.
Era um homem pacato. Vencido pelo câncer de pulmão, a escoliose crônica, e várias doenças hepáticas. Embora isso não o incomodasse. Sabia que um dia isso viria a acontecer, nunca cuidou da saúde: fumou, bebeu em demasia. Aos noventa e três anos ainda era lúcido e lembrava de cada dia de sua vida.
A cadeira não trazia paz `a sua mente. Tudo que podia ter sido na vida, e foi. Será que tinha aproveitado de tudo? O sol já se ia e uma nuvem negra lá no horizonte se aproximava. Lembrou de quando batera no filho. Lástimas. O que será que teria acontecido se não tivesse esbofeteado a cara dele quando o menino quebrou um vaso chinês da mãe? Teria sido um menino melhor, sem rancor? Se envolveria com a desobediência e a desordem? Imaginar outros caminhos era difícil.
O tom laranja de despedida do sol aliviava a face queimada pela tarde quente e abafada. Tornou a fechar os olhos. Ponderou. Já não sabia mais para quê fazia aquilo. Mesmo assim remoia cada ação de sua vida. Cada detalhe, cada pensamento. A nuvem se aproximou um pouco mais.
A porta enferrujada fazia um barulho desagradável. Não quis se levantar para consertar. Abriu os olhos e avistou ao longe o lago que presenciou grande parte de sua vida. Não tinha mais razão para pensar. Foi porque foi assim. Não fizera nada de errado. Apenas viveu. As decisões que tomou, já não importam se acertadas ou não, eram dele. E isso o tornou ele mesmo. Outros rumos, acariciado o filho tivesse, amado a mulher. Não era para ser assim. Viveu.
A nuvem chegou. Uma chuva fina molhou a casa. Sentado, parou de respirar.
A tarde iluminava bem a varanda, o sol do campo não encontrava obstáculos para varrer o verde e brilhar a madeira. Só aquele senhor sentado a olhar as flores. Um olhar triste, meio abatido se juntava com as rugas que ganhara durante a vida.
Uma margarida soltou uma pétala. Hesitou, quis se levantar, a coluna doía, juntou forças e saiu da cadeira. O vento forte balançava seu cabelo. Pegou a pétala. Lembrou dela. Três décadas.
A textura da pétala lembrava sua face jovem. Delicada. Parou uns instantes. Fechou os olhos. O que será que ela pensava dele? Havia cometido tantos erros nesses trinta anos. Faltou com carinho. Vamos amanhã? Quem sabe amanhã? Trabalhou demais.
Não, agora não, não vou pensar nisso agora. Que importância? Um dia saí mais cedo. Tudo que pensar não vai me tirar essa sensação. Foi uma constante? E os três filhos? Ela sempre os quis.
Abriu os olhos. Não conseguia medir as coisas. As lembranças nunca foram parcas. Levantou-se. Voltou novamente a sentar na cadeira de balanço. O sorriso era uma coisa que não lhe vinha à face.
Era um homem pacato. Vencido pelo câncer de pulmão, a escoliose crônica, e várias doenças hepáticas. Embora isso não o incomodasse. Sabia que um dia isso viria a acontecer, nunca cuidou da saúde: fumou, bebeu em demasia. Aos noventa e três anos ainda era lúcido e lembrava de cada dia de sua vida.
A cadeira não trazia paz `a sua mente. Tudo que podia ter sido na vida, e foi. Será que tinha aproveitado de tudo? O sol já se ia e uma nuvem negra lá no horizonte se aproximava. Lembrou de quando batera no filho. Lástimas. O que será que teria acontecido se não tivesse esbofeteado a cara dele quando o menino quebrou um vaso chinês da mãe? Teria sido um menino melhor, sem rancor? Se envolveria com a desobediência e a desordem? Imaginar outros caminhos era difícil.
O tom laranja de despedida do sol aliviava a face queimada pela tarde quente e abafada. Tornou a fechar os olhos. Ponderou. Já não sabia mais para quê fazia aquilo. Mesmo assim remoia cada ação de sua vida. Cada detalhe, cada pensamento. A nuvem se aproximou um pouco mais.
A porta enferrujada fazia um barulho desagradável. Não quis se levantar para consertar. Abriu os olhos e avistou ao longe o lago que presenciou grande parte de sua vida. Não tinha mais razão para pensar. Foi porque foi assim. Não fizera nada de errado. Apenas viveu. As decisões que tomou, já não importam se acertadas ou não, eram dele. E isso o tornou ele mesmo. Outros rumos, acariciado o filho tivesse, amado a mulher. Não era para ser assim. Viveu.
A nuvem chegou. Uma chuva fina molhou a casa. Sentado, parou de respirar.
Fui conferir MINHA MÃE GOSTA DE MULHERES. Bom filme. A verdade é que o filme não tem nada de mais, a direção é boa, a fotografia não compromete, o figurino é mto bom e a história é engraçada. Mas nada que o faça ser considerado um filme de arte, como a maioria das pessoas rotulam os filmes europeus. É, entretenimento não se faz só nos EUA.
22.10.04
15.10.04
Depois de alguns problemas com os textos que iriam ser postados, o Coluna volta com força total.
O Amor Acaba.
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos
O Amor Acaba.
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Paulo Mendes Campos
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